Este artigo tem por objetivo lembrar uma figura feminina que, apesar do relevante papel que exerceu na história do Espiritismo, permanece pouco lembrada e até desconhecida por grande parte dos espíritas na atualidade. Falamos de Amélie Gabrielle Boudet, a digna e valorosa consorte de Denizard Hippolyte Léon Rivail, o Codificador do Espiritismo.

No círculo íntimo familiar e de amigos Amélie Gabrielle Boudet era carinhosamente chamada “Gaby”. Reencarnou nos arredores de Paris no ano de 1795, recebendo dos pais educação esmerada. Após cursar o colégio primário, estabeleceu-se com a família na capital francesa. Ingressou numa Escola Normal de orientação pestalozziana, de onde sairia diplomada como professora de primeira classe. Mais tarde formou-se Professora de Letras e de Belas Artes. Publicou três livros: Contos Primaveris (1825), Noções de Desenho (1826) e O Essencial em Belas Artes (1828).

Frequentadora habitual dos aristocráticos salões onde movimentavam-se grandes nomes da intelectualidade, eis que no ano de 1831, num sarau literário, a jovem Amélie Boudet foi apresentada ao jovem Denizard Hippolytte Léon Rivail.

Embora nove anos mais velha, estabeleceu-se entre ambos quase que uma sintonia em que os idealismos eram a mais pura expressão de amor à Natureza e à Humanidade. O contrato de matrimônio foi assinado em 06 de fevereiro de 1832.

A vida de recém-casados não foi tão fácil, atravessaram grandes dificuldades de ordem financeira, porém Gaby sempre se mostrou corajosa, jamais esmorecendo. Pelo contrário, incentivava o marido nos trabalhos de pedagogia e ciências, enquanto ela própria se dedicava ao magistério e em casa exercia o papel de secretária do esposo.

Mas, quando bem poderiam desfrutar da vida sem sobressaltos financeiros e aparecerem nas colunas sociais, alguns fatos começaram a despertar a atenção do erudito Denizard: os fenômenos das mesas girantes que davam respostas às perguntas lhes formuladas.

Denizard, depois de numerosos convites de amigos sinceros, rendeu-se a observar cuidadosamente as manifestações dos fatos. Começou a perceber que por detrás das respostas às perguntas muitas vezes banais, havia a intervenção de seres pensantes do mundo extracorpóreo, “almas de homens que haviam morrido” conforme relatou. Partindo do princípio de que as respostas obedeciam a um código de sinais oriundos de uma mentalidade invisível, concluiu que todo efeito inteligente é sempre produto de uma causa também inteligente.

Começava a tomar corpo uma ciência nascida de um método racional investigativo, ciência que teria extensão filosófica: o Espiritismo. Iniciou-se para o casal uma nova fase de trabalhos. Atuando como secretária do marido, que em 1857 adotara o nome de Allan Kardec, a destemida Gaby assegurou ao Codificador a certeza de estar firmemente assessorado no lançamento dos cinco livros da Codificação. Inclusive, foi por sua inspiração e incentivo que Kardec arrojou-se à fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e na criação da Revista Espírita.

Na intimidade sagrada do lar, a Doce Gaby, infatigável, se constituía fortaleza resistente dando ao digno esposo o encorajamento, elevando-lhe o moral para prosseguir fielmente a missão que lhe fora confiada e enfrentar sereno, mas com firmeza de ânimo, as calúnias e difamações de seus detratores.

Ela assim continuou até a desencarnação de Allan Kardec em 1869. Contudo, não se recolheu à condição de viúva, prosseguiu nas atividades do movimento espírita da França e da comunidade internacional até sua desencarnação em 21 de janeiro de 1883, aos 87 anos.

Não deixando herdeiros diretos, por testamento constituiu como legatária universal das obras de Kardec a Sociedade Parisiense. Sua derradeira contribuição foi a concessão de importantes documentos, preciosas correspondências trocadas entre o Mestre e destacadas personalidades políticas e sociais, mensagens mediúnicas de grande valor, anotações e manuscritos conservados pelo Codificador para futuras publicações. Compreendendo que esses documentos não eram propriedade particular, Amélie entregou-os para a posteridade espírita mundial, que compilados deram corpo ao livro “Obras Póstumas”, que com justiça passou a figurar entre as obras básicas do Espiritismo.

Empenhemos, pois, nosso pleito de honra e gratidão a esse notável Espírito que se imortalizou na Terra com o nome de Amélie Gabrielle Boudet, pouco lembrada mas que se avultou como “a grande mulher ao lado de um grande homem”.

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