À medida que passamos a ter contato com o Espiritismo, seja frequentando uma instituição, participando de lives espíritas (tão comuns em tempos de distanciamento social), vamos ouvindo algumas palavras e termos que compõem o vocabulário espírita.

No entanto, muitas vezes, as nomenclaturas espíritas são substituídas por outras, de outras religiões ou doutrinas, podendo gerar confusão em relação a conceitos doutrinários.

Neste artigo vamos refletir um pouco sobre esse assunto. Acompanhe!

O que é linguagem, afinal?

Segundo o linguista francês Louis Hjelmslev a linguagem é ferramenta, espelho, lugar. Ferramenta por ser veículo de comunicação; espelho por refletir e traduzir o ser humano que se revela pela linguagem que utiliza; lugar porque reflete a pessoa no meio físico-social onde vive. Já o escritor Joseph Jaworski afirma que “é através da linguagem que criamos o mundo, porque ele não é nada até que o descrevemos”.

A linguagem é essencial por ser um instrumento que permite aproximação entre pessoas, favorecendo o pensar e o agir.  Através da linguagem influenciamos e provocamos mudanças, cativamos ou afastamos pessoas.

Também na divulgação e entendimento da Doutrina Espírita a linguagem tem um papel fundamental, existindo mesmo um vocabulário espírita, especialmente criado pelo Codificador Allan Kardec, para explicar de forma adequada os conceitos do Espiritismo.

 Vocabulário espírita: por que é importante?

Na Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec criou um tópico chamado Espiritismo e Espiritualismo e ali, bem no comecinho da obra inaugural do Espiritismo o professor francês explica a importância do vocabulário espírita – vejamos:

“Para designar coisas novas são necessárias palavras novas, pois assim o exige a clareza de linguagem, para evitarmos a confusão inerente aos múltiplos sentidos dos próprios vocábulos.” (…)

 “Em lugar das palavras espiritual e espiritualismo, empregaremos, para designar esta última crença, as palavras espírita e espiritismo, nas quais a forma lembra a origem e o sentido radical e que por isso mesmo têm a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando para espiritualismo a sua significação própria. Diremos, portanto, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se o quiserem, os espiritistas.”

Apesar de Kardec ter mencionado apenas um exemplo – Espiritismo e Espiritualismo -, ele mostra que a linguagem é um dos elementos mais importantes para preservação de uma mensagem.

Homem muito culto, pedagogo e pensador reconhecido, o líder espírita sabia usar as palavras de modo adequado.

Respeitar o vocabulário espírita adotado pelo Codificador, portanto, é muito importante na transmissão correta dos ensinamentos do Espiritismo.

Os adeptos do Espiritismo e o vocabulário espírita

Provavelmente, trata-se de uma atitude impensada, mas o fato é que muitos espíritas demonstram ser refratários ao vocabulário espírita, substituindo as terminologias da Codificação Espírita por outras, muitas vezes provenientes de doutrinas e religiões diversas e tendo, portanto, significado próprio.

Para ficarmos apenas em alguns exemplos, vejamos algumas palavras utilizadas pelo meio espírita, inclusive por dirigentes e expositores, mas que não fazem parte da base kardequiana: carma, aura, umbral.

Carma e aura são provenientes do espiritualismo, sendo que o conceito de carma fere os princípios do livre arbítrio. Já umbral significa uma espécie de portal ou passagem, mas que para a maioria dos espíritas significa um local onde espíritos desencarnados que possuem pouco esclarecimento ficam aguardando o momento de partir para planos mais equilibrados – uma espécie de “inferno” (ou purgatório) espírita, o que contradiz totalmente os ensinamentos doutrinários.

Da mesma forma, expressões não encontradas na Codificação são comuns entre os adeptos da fé raciocinada.

Ação e Reação é usada por muitos como sinônimo para Causa e Efeito, apesar de representarem ideias distintas. O termo evangelização, por sua vez, ganhou terreno entre as lideranças do Espiritismo, sem nunca ter sido usado pelo Codificador que sempre preferiu o termo “educação” – muito mais apropriado, ao meu ver, haja vista que o primeiro pressupõe o ensino da parte moral da Doutrina e o segundo, de toda a base doutrinária, muito mais completo – entre outros motivos.

Incorporação é outro exemplo de palavra nascida pós Kardec e que pressupõe a tomada do corpo do médium pelo espírito comunicante, o que não acontece. Já a palavra psicometria nasceu na área de psicologia, sendo mais tarde incorporada ao vocabulário espírita.

Em seu ótimo trabalho, intitulado Ferramentas do Saber, Paulo Castanheira (articulista deste blog, expositor e estudioso da Doutrina Espírita, além de advogado e ter formação em letras), tem opinião sobre o assunto: “Particularmente, acredito ser mais apropriado utilizarmos as terminologias constantes na Codificação. Mas, se for preciso usar outras, que haja discussões nesse sentido, evitando o uso de palavras que possuam sentido diverso do que o Espiritismo ensina”, afirma Castanheira.

Ele vai além, deixando-nos um roteiro para que possamos ter mais cuidados com a linguagem espírita. Em primeiro lugar, orienta, devemos estudar o vocabulário espírita (contido na Codificação) para criarmos uma espécie de glossário relacionado ao vocabulário espírita. Soma-se a essas providências o esclarecimento desse vocabulário, juntamente com a conscientização da importância de sermos fieis à linguagem criada e adotada pelo professor Rivail.

Paulo Informa ainda que “Kardec, no livro ‘Instruções Práticas Sobre as Manifestações Espíritas’, apresenta glossário essencial das palavras e conceitos que idealizou para a Doutrina Espírita. Este glossário deve ser objeto de estudo nas casas espíritas e seu uso deve ser incentivado nas palestras, cursos, livros e em todas as atividades de estudo e difusão do Espiritismo”.

O vocabulário espírita e os termos de outras religiões

 

Outro fator interessante diz respeito ao fato de Kardec ter utilizado termos já existentes em outras doutrinas, caso de “anjo”, por exemplo. Segundo Paulo Castanheira, sempre que o Codificador precisou utilizar palavras provenientes de outras doutrinas, explicou antes o motivo pelo qual assim procedia, bem como esclareceu em que sentido ia empregar a palavra – no caso de anjo, não se referia a um ser de asas e nascido perfeito, mas a um Espírito que, por méritos próprios, havia atingido um patamar evolutivo elevado.

Isso nos leva a outro ponto que merece ser lembrado: os Espíritos superiores que participaram da Codificação, sempre deixaram claro que o problema de linguagem é uma dificuldade dos encarnados e que caberia a nós encontrar soluções para superá-lo.

Uma das maneiras é adotando o vocabulário espírita, contido nas obras que fundamentam o Espiritismo, publicada por Allan Kardec. Outra forma é estudar a Codificação, refletindo sobre seu conteúdo, um dos principais objetivos de Café com Kardec. Acompanhe-nos através de nosso Blog e das redes sociais!

P.S.: Para obter mais informações sobre o projeto “Ferramentas do Saber”, entre em contato conosco!

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