Coerência: o que é, afinal?

De acordo com o dicionário de significados, coerência é a característica daquilo que tem lógica e coesão, quando um conjunto de ideias apresenta nexo e uniformidade. Para que algo tenha coerência, este objeto precisa apresentar uma sequência que dê um sentido geral e lógico ao receptor, de forma que não haja contradições ou dúvidas acerca do assunto. A origem da palavra “coerência” está no latim cohaerentia, que significa “conexão” ou “coesão”. (in https://www.significados.com.br/coerencia/)

O conceito de coerência é singelo, mas profundo, pois depende de lógica e coesão:

Lógica (do grego logos)… discute o uso de raciocínio em alguma atividade…A lógica examina de forma genérica as formas que a argumentação pode tomar, quais dessas formas são válidas e quais são falaciosas. (in https://pt.wikipedia.org/wiki/Lógica);

Coesão é a conexão, ligação, harmonia entre os elementos de um texto. Percebemos tal definição quando lemos um texto e verificamos que as palavras, as frases e os parágrafos estão entrelaçados, um dando continuidade ao outro.

 Allan Kardec, no Preâmbulo de O que é o Espiritismo, esclarece que “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações”.

Isso posto, assim entendo o que significa falarmos em coerência doutrinária – sendo o Espiritismo ciência (decorrente do processo de observação, estudo e análise das manifestações espirituais, desde o século XIX até agora, e seguindo assim ao futuro) e filosofia (pela aplicação desses conhecimentos em acréscimo das considerações que fazemos sobre nossa existência material, principalmente nos aspectos morais, de relacionamento humano), existem regras elementares a serem seguidas para a incorporação de novos conceitos à Doutrina Espírita.

Regras para incorporar novos conceitos ao corpo doutrinário

Tais regras foram já definidas por Allan Kardec (lembremos, o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, de ampla cultura, com conhecimentos em várias áreas científicas, e portanto muito criterioso em suas atividades): o uso do raciocínio e do bom senso na crítica a todas as ideias relativas ao Espiritismo, tanto de encarnados quanto de desencarnados, e nestes o emprego do que ele designou como Controle Universal do Ensino dos Espíritos. Esta segunda regra tomando em consideração a presença entre os desencarnados de Espíritos de grande inteligência ao lado de outros ainda em estágio muito atrasado, todos podendo se manifestar.

Traduzindo em forma mais simples e direta: em todos os agrupamentos espíritas, em estudos ou palestras podemos apresentar aos demais nossas interpretações sobre conceitos espíritas, por vezes sem a adequada demarcação de se tratarem de nossas interpretações, levando os que nos ouvem a acreditar que tudo que falamos é parte integrante da Doutrina Espírita, aprendido diretamente nas obras fundamentais; e os espíritos podem se manifestar, relatando suas angústias, com sua forma única de vivenciar e expressar suas experiências, ou produzindo mensagens que podem ser de conforto moral ou de orientação ao grupo.

As falhas na Coerência Doutrinária

Ocorre a falha de coerência doutrinária ao se aceitar acriticamente qualquer fala ou mensagem, pois ela pode conter imprecisões, erros de entendimento, incapacidade do espírito de relatar corretamente o que vive ou sente, falhas no processo mediúnico (por parte do grupo ou do médium) ou ainda tratar-se de espírito que pretende dominar o ambiente, grupo ou o médium (nas diversas formas de obsessão, a que qualquer de nós está sujeito, por imperfeitos que somos).

E essas ideias, muitas vezes, por falta de atenção na análise, acabam sendo difundidas em periódicos, livros ou na Internet, gerando confusão e desinformação – como mencionado no artigo Comunicando e Complicando, aqui em nosso blog.

Aos leitores desavisados surge, então, uma ‘babel’ de conceitos desajustados, a que Allan Kardec chama a atenção em O Livro dos Médiuns, no capítulo 27 da segunda parte, quando trata das contradições, apontando ambas as origens – os encarnados com seus sistemas preconcebidos e os desencarnados com suas mensagens decorrentes de sua inteligência e percepção limitadas – levando à falta de coerência doutrinária.

Sabemos que a Doutrina Espírita – e seus ensinamentos – não se encerra nos livros da chamada Codificação, nem sequer nas mais de 30 obras deixadas por Kardec, mesmo sendo estas todas fundamentais para seu entendimento. Justamente por isso, apesar da orientação deixada por ele em A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, no capítulo I, Caráter da Revelação Espírita: “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará”, há que ter enorme responsabilidade em pretender apensar novos conceitos, pois a construção desse corpo se fez com extremo cuidado e lógica, sendo um conjunto coerente e, portanto, coeso – respeitando a coerência doutrinária!

Novas ideias espíritas: saiba como proceder!

Ideias novas podem ser debatidas, mas antes de se incorporar novos conceitos esses debates devem ser considerados apenas como estudos e submetidos a todos os controles do raciocínio, da lógica e da coesão com os conceitos elementares já presentes.

Lembremos da advertência creditada ao espírito Erasto, em O Livro dos Médiuns, capítulo XX, Da influência Moral do Médium: …”Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea”… E esclarece que uma única falsidade pode fazer desmoronar toda a teoria ao ser demonstrada a verdade, ao passo que as verdades deixadas para melhor análise não deixarão de o ser, e ao tempo adequado serão reconhecidas.

No capítulo XIX de O Evangelho segundo o Espiritismo, intitulado A Fé transporta montanhas, encontramos uma frase que bem define a importância de um conhecimento racional e firmado na lógica, em que pela compreensão dos conceitos se obterá crença racional: “Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade”.

Compreender que o Criador não é um ‘dos nossos’, o universo não gira em torno de nós, nossa vida se estende pela imortalidade e que transitamos um sem número de vezes entre os dois campos da vida, sempre em contato – o ‘plano espiritual’ não é ‘lá’ (um lugar distante ou delimitado, uma ‘cidade’ ou ‘vale’) mas aqui ao nosso lado, sem ‘mágicas’ nem mistérios, é o primeiro passo para nossa atuação como espíritas conscientes das responsabilidades na difusão correta da Doutrina Espírita.

Como assevera Allan Kardec em um dos parágrafos finais da Conclusão de O Livro dos Espíritos: “O argumento supremo deve ser a razão. A moderação garantirá melhor a vitória da verdade do que as diatribes envenenadas pela inveja e pelo ciúme. Os bons Espíritos só pregam a união e o amor ao próximo, e nunca um pensamento malévolo ou contrário à caridade pode provir de fonte pura”.

Neste artigo abordamos a coerência doutrinária e sua importância para que os conceitos espíritas sejam divulgados de modo correto. Para refletir ainda mais sobre esse assunto, sugerimos a leitura de outros textos de Café com Kardec:

  1. Mensagens Mediúnicas: uma análise crítica
  2. O que é um livro espirita?
  3. Cosmos: uma odisseia no espaço-tempo ajuda a compreender
    conceitos de A Gênese, de Kardec.

 

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